O Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES) participou do Encontro das Mulheres Indígenas da Arquidiocese de Manaus, representado pela Educadora Social Mercy Soares. O encontro, realizado dia 10 de outubro de 2026, no auditório Ir. Monserrat, da Comunidade Menino Jesus – Área Missionária Santa Dulce do Pobres, foi marcado pela partilha de experiências, pelo fortalecimento da organização comunitária e pela reafirmação do compromisso com a valorização das identidades, dos saberes ancestrais e dos direitos dos povos originários.
A atividade foi organizada sob a coordenação do Padre Rodriguinho, da Pastoral Indígena da Arquidiocese de Manaus (PIAMA), em parceria com as Irmãs Lauritas e a Cáritas Arquidiocesana de Manaus. A iniciativa reafirma a importância de uma Igreja que caminha junto aos povos indígenas, reconhece suas lutas e fortalece sua presença e participação nas comunidades e nos espaços eclesiais.
Como desdobramento do processo formativo, o encontro possibilitou o reencontro entre diversos cursistas do curso “Povos Originários e Territorialidade: Formação para as Causas Indígenas e Comunidades Tradicionais”, encerrado em 3 de outubro. A experiência reafirma que a formação não se encerra com a conclusão das aulas, mas se prolonga em novos encontros, na participação em espaços comunitários e no compromisso compartilhado com as causas indígenas, a defesa dos direitos e o fortalecimento dos territórios.
O Encontro das Mulheres Indígenas da Arquidiocese de Manaus destacou o papel fundamental das mulheres indígenas na preservação das culturas, na transmissão dos conhecimentos ancestrais, na organização comunitária e na luta por reconhecimento e dignidade.
A participação do SARES deu-se no acompanhamento de um grupo de escuta voltado ao mapeamento de instituições e entidades próximas aos territórios, visando fortalecer vínculos e ampliar o acesso a serviços e direitos. Dentro da programação houve um momento que propôs a representação de um rio, no qual as mulheres expressaram o significado de ser mulher indígena, identificando, em uma margem, os problemas e desafios enfrentados e, na outra, as possíveis soluções. A metodologia contou com a assessoria da Associação Indígena Kokama Multiétnica Uirapuru (Aikimu).
Inaíra, coordenadora da Comunidade Indígena do Branquinho, agradeceu pela realização do encontro e ressaltou sua importância para o fortalecimento da PIAMA e para a continuidade da atuação da Igreja Católica junto à comunidade. Sua manifestação evidencia o valor desses espaços de encontro e articulação, que aproximam lideranças, comunidades e agentes pastorais, fortalecendo a caminhada coletiva e a presença da Igreja junto aos povos indígenas.
Entre os desafios compartilhados durante o encontro, a líder indígena Daisy Warao chamou a atenção para as dificuldades enfrentadas pelas famílias de seu povo, especialmente no acesso à água e na aceitação das crianças indígenas nas escolas regulares. “Além das dificuldades de acesso à água, é dificuldade na aceitação das nossas crianças nas escolas normais. Temos muitas crianças que já nasceram no Brasil, somos brasileiros, porém, talvez o nosso alagamento seja porque não temos nacionalidade, mas temos direitos”, expressou Daisy Warao.
O relato de Daisy amplia o sentido do encontro: escutar as mulheres indígenas é reconhecer suas demandas, dar visibilidade às violações de direitos e fortalecer a busca por respostas concretas. É também reafirmar que os povos indígenas, inclusive aqueles que vivem em contexto de mobilidade e migração, têm dignidade, histórias, culturas e direitos que precisam ser reconhecidos e respeitados.
Portanto, a defesa dos direitos indígenas perpassa pela valorização e práxis de dois importantes dispositivos da Constituição Federal de 1988: os artigos 231 e 232. O artigo 231 reconhece a organização social, os costumes, as línguas, as crenças e as tradições dos povos indígenas, assim como seus direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Também atribui à União a responsabilidade de demarcar essas terras, protegê-las e fazer respeitar todos os seus bens. Já o artigo 232 reconhece aos indígenas, às suas comunidades e organizações legitimidade para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, com a intervenção do Ministério Público em todos os atos do processo.
A presença desses dispositivos na reflexão do encontro reforça que a defesa dos povos originários exige mais do que reconhecimento formal: requer compromisso com a efetivação dos direitos, a proteção dos territórios, o respeito às identidades culturais e o fortalecimento das organizações indígenas.
Quando as mulheres indígenas são reconhecidas, escutadas e fortalecidas, suas comunidades ganham força, seus direitos tornam-se pauta coletiva e a esperança se transforma em caminho de resistência e transformação. O SARES segue comprometido com a formação, a articulação em rede e a construção de caminhos de justiça, reafirmando a importância de uma Igreja que caminha com os povos, aprende com seus saberes e se coloca ao lado daqueles que defendem a vida, a dignidade e a Casa Comum.
Depoimentos:
“Como continuidade da experiência vivida no curso sobre povos originários e tradicionais de Manaus, oferecido pelo SARES, hoje nos reunimos com mulheres indígenas de comunidades acompanhadas pela Pastoral Indigenista. Foi um espaço de escuta mútua, diálogo e partilha, com a firme intenção de oferecer um acompanhamento integral a partir de suas realidades, dificuldades, conquistas e sonhos. A voz das mulheres é uma força ativa que preserva e cuida de suas culturas e tradições. Este encontro, organizado pela equipe da Pastoral Indigenista, contou também com a presença de outras instituições unidas na mesma luta: escutar o grito dos povos originários e promover o respeito aos seus direitos no contexto urbano. Reconhecemos, mais uma vez, que as mulheres indígenas são a força da floresta e da cidade” (Ir. Elba D’Erizan – Missionária Laurita).
“Há uma ideia que atravessa tanto o Curso sobre os Povos Originários quanto o Encontro de Mulheres Indígenas realizado hoje: a luta pelo advento de um mundo onde seja bom viver. Não se trata, na verdade, de uma simples reivindicação, mas de uma afirmação de identidade enquanto povos originários. Trata-se de valorizar os valores, as tradições, as línguas e os costumes que compõem a riqueza dos povos indígenas. Ambos os momentos foram ricos em partilha de conhecimentos e experiências… Esperamos que essas pequenas gotas d’água contribuam para fazer germinar a semente de um mundo mais fraterno” (Pe. François Rançois D’Assise Kangite Wolima – Missionário Comboniano).







