Iniciativa reuniu lideranças, especialistas, Igreja e comunidades tradicionais em uma jornada formativa voltada à defesa dos direitos, da cultura e dos territórios amazônicos.
MANAUS (AM) – No último sábado (03/10), foi realizado a aula de encerramento do Curso de Extensão Povos Originários e Territorialidade: Formação para as Causas Indígenas e Comunidades Tradicionais (CPOTCOM). Promovido pelo Sares, em parceria com a Faculdade Católica do Amazonas e outras instituições, o curso reuniu participantes de diferentes territórios para refletir sobre direitos, ancestralidade, ecologia integral, participação social e defesa dos territórios amazônicos.
Ao longo de sua programação, o CPOTCOM promoveu um percurso formativo que conectou conhecimento acadêmico, saberes tradicionais e vivências concretas, reafirmando que a proteção da Amazônia passa necessariamente pelo reconhecimento e fortalecimento dos povos que historicamente cuidam de seus territórios.
A abertura do curso foi marcada pela Aula Magna ministrada pela Dra. Valéria Baniwa, que destacou a identidade indígena como uma construção viva, profundamente ligada à ancestralidade, à memória e ao território. O evento contou ainda com a participação do Dom Leonardo Steiner, Cardeal da Amazônia, que ressaltou a necessidade de formar lideranças comprometidas com a defesa da vida e capazes de enfrentar estruturas que promovem exclusão e negação de direitos.
O percurso seguiu-se com os módulos temáticos. No Módulo I, os participantes aprofundaram a História dos Povos Indígenas no Amazonas, refletindo sobre colonização, resistência e permanência. Já o Módulo II abordou a Ecologia Integral e o Magistério do Papa Francisco, relacionando o cuidado com a Casa Comum à defesa da vida, dos povos e dos territórios.
O Módulo III, desenvolvido em dois encontros, foi dedicado aos Direitos dos Povos Originários e das Comunidades Tradicionais. As reflexões abordaram os direitos assegurados pela Constituição Federal, os processos de reconhecimento e proteção e a importância da participação na defesa dos territórios e das comunidades. Dessa forma, o curso foi aproximando os participantes não apenas dos conteúdos históricos e jurídicos, mas também dos desafios concretos vivenciados na Amazônia.
Um dos momentos mais significativos foi o Módulo IV – Povos indígenas e comunidades tradicionais em contexto urbano, realizado no Quilombo Cultural de São Benedito, no Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito, bairro Praça 14, em Manaus. A atividade possibilitou uma experiência direta no território, com reflexões sobre movimentos sociais, cidadania, participação política, organização e resistência. A roda de conversa e a vivência permitiram reconhecer o território como espaço de pertencimento, memória, produção de saberes e transmissão de conhecimentos entre gerações.
Durante a visita, os participantes puderam conhecer de perto manifestações da cultura afro-amazônica, expressas na oralidade, na música, na percussão e na gastronomia. As lideranças locais compartilharam narrativas sobre ancestralidade, organização comunitária e resistência, demonstrando que o conhecimento é construído também nos cotidianos das comunidades e em suas práticas culturais. O Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito constitui uma das mais importantes expressões da presença, da resistência e da permanência da população negra na Amazônia.
A conjuntura atual evidencia a aproximação entre diferentes sujeitos, organizações e movimentos, contribuindo para diminuir distanciamentos e fortalecer a articulação das lutas indígenas e das comunidades tradicionais amazônicas. Nesse sentido, reconhecer a presença e a atuação dos povos indígenas e das comunidades quilombolas em contexto urbano é fundamental para compreender a diversidade das experiências e sua participação e desafios nos processos de cidadania, incidência política e defesa de direitos.
No Módulo V, os participantes refletiram sobre os desafios e perspectivas para os povos indígenas e comunidades tradicionais, com destaque para educação, saúde, comunicação, impactos socioambientais e diferentes formas de resistência e mobilização. O percurso foi concluído com o Módulo VI, dedicado à História das Comunidades Tradicionais no Amazonas, retomando processos históricos e a contribuição dessas comunidades para a formação social e cultural da Amazônia.
Um destaque importante desta edição foi a ampliação do alcance da formação por meio da modalidade virtual, permitindo a participação de representantes de diversos municípios do estado do Amazonas, Pará e Rondônia.
Ao longo dos módulos, a formação reafirmou que conhecer as causas indígenas e das comunidades tradicionais exige mais do que acessar conteúdos: é necessário escutar, dialogar, aproximar-se dos territórios e reconhecer os saberes produzidos pelas próprias comunidades. A experiência também possibilitou ampliar o alcance da formação por meio da modalidade virtual, atendendo à solicitação de participantes de diferentes municípios do estado do Amazonas, Pará e Rondônia. Assim, o curso encerrou seu percurso fortalecendo o compromisso com a defesa da vida, dos direitos, dos territórios, da justiça socioambiental e do Bem Viver.
Seguem abaixo os depoimentos de alguns dos participantes do curso, que demonstram muita gratidão para seguirem lutando em defesa da Amazônia e seus povos:
“O Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito é a prova viva de que a resistência quilombola na Amazônia atravessa gerações, preservando memórias, fortalecendo identidades e reafirmando direitos em pleno coração de Manaus” (Dra. Rafaela Fonseca, assessora do módulo IV e compõe a coordenação do Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito)
“[…] faço parte do movimento Laudato Si’, sou católica e ativista pelo meio ambiente. E agora, pelos povos originários também. Acabei de participar da 4ª turma do Curso Povos Originários e Territorialidades. Eu não sou indígena, sou nordestina, mais me junto aos povos originários pelo meio ambiente, pelos territórios. Então, eu amei fazer parte do curso, o próximo também quero me fazer presente” (Navratinova Cardonha, mobilizadora do Movimento Laudato Si’ em Manaus)
“[…] destaco a importância do curso para o fortalecimento das lutas e buscas, porque a presença indígena nas cidades revela que identidade, ancestralidade e pertencimento ao território não deixam de existir diante dos processos de urbanização, mas assumem novas formas de expressão, organização e resistência” (Profa. Dra. Danielle Munduruku, assessora do Módulo IV)






