Rede Soma dos Quintais, articulada pelo Sares, reuniu 43 mulheres de diferentes territórios da Amazônia para fortalecer vínculos, compartilhar saberes e construir estratégias coletivas de cuidado e defesa da vida
Entre os dias 25 e 27 de setembro, a Chácara Dom Luciano, em Manaus (AM), sediou o Seminário Bioma Amazônia, que reuniu 43 mulheres de diferentes territórios e realidades da região, integrantes da Rede Soma dos Quintais das Mulheres da Amazônia, articulada pelo Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares).
Com o tema “Bioma Amazônia: Mulheres tecendo relações de autocuidado em defesa dos territórios e da vida”, o encontro foi marcado por acolhida, espiritualidade, práticas de autocuidado, diálogo sobre participação política e construção coletiva de estratégias para fortalecer a articulação das mulheres e a defesa dos territórios.
Participaram do Seminário representantes de organizações, movimentos, comunidades, instituições e articulações que atuam em diferentes territórios da Amazônia, entre elas: Centro Alternativo de Cultura (CAC); Secretaria da Preferência Apostólica Amazônica (PAAM); Escritório de Relações Institucionais e Sustentabilidade da PAAM; Fundação Fé e Alegria; Equipe Itinerante; Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA); Grupo Cirandeiras da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil); Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) – Arquidiocese de Manaus; Fórum das Águas do Amazonas; Casa Amazônica de Francisco e Clara; Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Rondônia e da Prelazia de Itacoatiara; Organização das Mulheres Indígenas Mura de Autazes (OMIM); Comunidade Lago dos Soares, em Autazes (AM); Associação Wainakana Ayukawarana; Conselho Indigenista Missionário (CIMI) – Regional Norte 1; Fiocruz Amazônia; Movimento Maria Sem Vergonha; Faculdade Católica do Amazonas; Área Missionária Divina Misericórdia; Comunidade Nova Vida; Rede Jubileu Sul Brasil; Articulação das Mulheres Amazônicas (AMA); Rede de Catadores e Catadoras da Amazônia Legal (RECAL); e União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias (UNICOPAS).



Acolhida, espiritualidade e autocuidado
A programação teve início na noite da sexta-feira (25), com uma mística de abertura, seguida de uma dinâmica de apresentação e memória dos encontros anteriores, conduzida pela equipe do Sares, formada pela assistente administrativa Ticiana Macedo, pela educadora social Mercy Soares e pela analista social Mary Nelys.
O primeiro momento também foi dedicado ao autocuidado, com atividades de massagem coletiva e banho de ervas, criando um espaço de cuidado, escuta, acolhimento e conexão entre as participantes.
Floresta, água e participação política
No sábado (26), as atividades foram organizadas a partir dos eixos Floresta e Água, conectando as experiências das mulheres às diferentes dimensões da vida nos territórios amazônicos.
No Eixo Floresta, conduzido por Suelem Velasco, coordenadora do Centro Alternativo de Cultura e assessora da Rede, as participantes construíram o “Mapa Vivo dos Territórios – Cartografando os Quintais da Vida”. A atividade buscou registrar, de forma coletiva, iniciativas de cuidado, resistência e defesa da vida desenvolvidas pelas próprias participantes em seus territórios.
Já no Eixo Água, coordenado por Lidiane Cristo, secretária da PAAM, e Joyce Falcão, analista de captação de recursos da PAAM, a discussão avançou para a relação entre os quintais e os espaços de decisão. Com o tema “Dos Quintais aos espaços de decisão”, as participantes dialogaram sobre participação política, o voto pela Amazônia e a importância da incidência nos espaços de decisão.
Durante a primeira parte da tarde, foi elaborada a agenda anual da Rede Soma dos Quintais, sob a condução da analista social Mary Nelys, com a definição de encontros periódicos, calendário de ações e estratégias para fortalecer a articulação das mulheres e a defesa dos territórios.

Cuidar de quem cuida
A segunda parte da tarde foi dedicado à reflexão sobre o cuidado como dimensão fundamental da caminhada das mulheres.
No eixo “Cuidar de Quem Cuida”, quatro oficinas e vivências integradas proporcionaram momentos de troca, acolhimento e fortalecimento coletivo: Dança Circular, Memória Ancestral, Sabonete Medicinal e Danças Populares.
As atividades possibilitaram às participantes vivenciar diferentes formas de cuidado, resgatar saberes e memórias e fortalecer vínculos a partir de experiências compartilhadas.
Ao final do dia, houve uma noite cultural de celebração e convivência das mulheres.
Mulheres e juventudes dialogam sobre novos caminhos
No domingo (27), último dia do encontro, a programação foi marcada pelo eixo “Raízes e Sementes”, com uma roda de conversa entre a Rede Soma dos Quintais das Mulheres da Amazônia e o Fórum das Juventudes Amazônicas.
Com uma metodologia participativa e horizontal, a roda foi pensada para ir além de uma palestra tradicional, criando um espaço de diálogo entre diferentes gerações.
A jovem Beatriz de Sá, do Centro MAGIS Amazônia, conduziu a atividade juntamente com Mary Nelys, analista social do Sares e representante da Rede Soma dos Quintais das Mulheres da Amazônia. A partir de histórias, experiências e aprendizados da caminhada das mulheres, o diálogo buscou refletir também sobre aquilo que elas desejam construir junto às juventudes.
Entre as perguntas que orientaram a conversa estavam: Quem são as mulheres que fazem parte dessa caminhada? Que histórias dos quintais merecem ser celebradas? E o que as mulheres desejam construir junto com as juventudes?
A conversa permitiu que as participantes identificassem pontos em comum, desafios compartilhados e possibilidades de colaboração entre mulheres e juventudes, fortalecendo a perspectiva de uma construção coletiva e intergeracional.
Assim, o encerramento do Seminário não significou o fim da caminhada. As experiências vividas, os saberes compartilhados e os vínculos construídos durante os três dias se transformaram em novas sementes para a continuidade da articulação das mulheres na defesa dos territórios, da vida e da Amazônia.
Vozes das participantes
Os depoimentos das participantes expressaram a importância do encontro como espaço de acolhimento, fortalecimento, partilha de experiências e construção coletiva.
“Cuidar de quem cuida também é parte da nossa luta”
Para Sara Negreiros, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Prelazia de Itacoatiara, o encontro foi marcado pela partilha e pelo fortalecimento entre mulheres:
“Esses dias foram incríveis de encontro, partilha, escuta e fortalecimento entre mulheres. Cada momento teve sua grande importância, cheio de pautas, vivências, autocuidado, trocas de experiências e construção coletiva e, principalmente, a oportunidade de estarmos juntas, mulheres de diferentes territórios, tecendo resistência, cuidado e esperança. Voltei para o meu território trazendo comigo muitos aprendizados, afetos e a certeza de que cuidar de quem cuida também é parte da nossa luta.”
“Um encontro acolhedor e fortalecedor”
Milena Mura, coordenadora das Mulheres Mura de Autazes, destacou a importância do encontro para as mulheres indígenas que enfrentam diferentes desafios em seus territórios:
“O encontro, para nós, enquanto Mura, foi muito fortalecedor. Hoje vivemos um cenário de desafios, ao enfrentar a empresa Potássio do Brasil como um dos maiores obstáculos da nossa luta. É uma empresa que envolve muitos órgãos, muitas pessoas poderosas. Então, para nós, que tomamos esse posicionamento de enfrentar esse desafio com muita garra, a cada encontro que vivenciamos trazemos sempre algo para nos fortalecer.
O encontro da Soma dos Quintais foi muito importante porque reuniu mulheres de diferentes territórios, mas que sofrem os mesmos impactos. Tanto para mim quanto para a Ana Paula, do Lago dos Soares, foi muito fortalecedor. Estávamos acostumadas a chegar aos encontros, falar dos nossos desafios, falar das nossas lutas, fortalecer outras mulheres e buscar algo daquele encontro para nos fortalecer. E a Soma dos Quintais foi algo totalmente diferente.
Foi acolhedor, foi apoiador. A Soma dos Quintais deixou uma impressão muito boa para nós, enquanto indígenas Mura. Já vamos levar isso para as nossas outras mulheres, para as nossas aldeias, mostrando o quanto foi importante estar nesse momento, nesse círculo de amizade entre pessoas de diferentes contextos de luta.”
“Um encontro que fortalece laços e lutas”
Para Elisângela Maciel, coordenadora dos Cursos de Extensão da Faculdade Católica do Amazonas, o encontro proporcionou experiências de fortalecimento, ancestralidade e conexão entre as mulheres:
“O Encontro da Rede Soma dos Quintais foi bonito, emocionante e instigante. As discussões, as interações e as oficinas realizadas fortaleceram os laços e as lutas das mulheres que atuam em diferentes frentes na Amazônia.
Minha oficina teve como foco a ancestralidade. Ela nos tocou profundamente e nos fez olhar para nossa história e para todas as conexões que temos, especialmente com as mulheres de nossas vidas, com nossa região e com as heranças que recebemos e que nos tornaram o que somos.
A oficina nos despertou para a força e a energia que carregamos, fortaleceu-nos como mulheres e nossas raízes e fortaleceu o elo entre nós. Gratidão pela oportunidade de estar com vocês. O encontro com mulheres que são lideranças, e saber que esse momento é proporcionado pelo SARES, como setor da Igreja, nos dá esperança para continuar a caminhada.”








Nota:
A Rede Soma dos Quintais das Mulheres da Amazônia é uma iniciativa de articulação e fortalecimento das mulheres amazônicas, coordenada pelo Sares, que busca criar espaços de encontro, autocuidado, cuidado coletivo, troca de saberes e organização coletiva.
O nome “Soma dos Quintais” traz a ideia de que cada mulher carrega um quintal — um espaço de vida, memória, saberes, afetos, plantas, histórias, práticas de cuidado e resistência. Quando esses diferentes quintais se encontram, eles se somam e formam uma força coletiva.
O que a Soma dos Quintais busca?
– Fortalecer a articulação e o protagonismo das mulheres da Amazônia;
– Promover autocuidado e cuidado coletivo como parte da sustentabilidade da ação das mulheres;
– Valorizar os saberes tradicionais e populares;
– Criar espaços de intercâmbio entre mulheres indígenas, ribeirinhas, negras, periféricas e urbanas;
– Fortalecer a espiritualidade ecológica e a relação com a Casa Comum;
– Dialogar sobre a defesa dos corpos, territórios, direitos e da vida;
– Construir estratégias coletivas para enfrentar os desafios vividos pelas mulheres e pelos territórios amazônicos, através de incidências ocupando espaços de decisão, implementando a Justiça Socioambiental.
